Boldrini faz 48 anos e consolida liderança no câncer infantojuvenil reforçando a importância do diagnóstico precoce
por Jéssica Oliveira
Ao completar 48 anos, o Centro Infantil Boldrini consolida-se como um dos principais centros especializados no tratamento do câncer infantojuvenil no Brasil e na América Latina. Referência em assistência, ensino e pesquisa, a instituição transformou o cenário da oncologia pediátrica no país ao longo de quase cinco décadas de atuação. Se, na época de sua criação, a taxa de cura era próxima de 5%, hoje os índices alcançam cerca de 80%, comparáveis aos de centros de referência da Europa e dos Estados Unidos. Esse avanço é resultado da combinação o pronto acolhimento do paciente (não há filas de espera), o diagnóstico preciso, protocolos terapêuticos reconhecidos internacionalmente, pesquisas e cuidado integral ao paciente e à família.
Entre as áreas em que o Boldrini se consolidou como referência nacional, está o diagnóstico e tratamento dos tumores oculares na infância, com destaque para o retinoblastoma, câncer raro, agressivo e típico dos primeiros anos de vida. Ao longo de sua trajetória, a instituição estruturou um dos mais completos programas de detecção precoce do país, fundamental para preservar não apenas a vida, mas também a visão das crianças.
Desde novembro de 2009, com base na Lei Municipal nº 11.598, o Boldrini realiza o exame de mapeamento de retina em bebês nascidos em Campinas e na macrorregião. A recomendação é que a avaliação seja feita aos 4 e repetida aos 15 meses de idade, período em que a criança recebe as vacinas obrigatórias. O procedimento permite identificar alterações, incluindo malformações das estruturas oculares, sinais de infecção congênita e tumores embrionários ainda em fase inicial, antes do surgimento de qualquer sinal ou sintoma.
Com a consolidação do Programa de Diagnóstico Precoce, o Boldrini já realizou mais de 15 mil exames de mapeamento de retina, desde sua implantação, sem interrupção do atendimento, mesmo durante a pandemia de Covid 19. Ao longo desse período, foram diagnosticadas anormalidades, com o pronto encaminhamento das crianças para tratamento e/ou acompanhamento, incluindo
5 casos de retinoblastoma. Em um deles, a criança apresentava tumores menores que 2 milímetros em ambos os olhos, aspecto que possibilitou a preservação dos globos oculares, sem comprometimento da visão, reforçando o impacto do diagnóstico na fase inicial.
O retinoblastoma acomete cerca de uma a cada 15 mil crianças, geralmente antes dos quatro anos de idade. Quando diagnosticado precocemente, as chances de cura podem ultrapassar 90%. No entanto, no Brasil, apesar dos avanços do tratamento, uma parcela significativa dos casos ainda é identificada tardiamente, o que aumenta o risco de sequelas, como a perda visual. Para a oftalmologista Dra. Maristela Palazzi, responsável pela implantação e execução do programa no Boldrini, o desafio está em fortalecer a cultura do diagnóstico precoce. “Todo bebê precisa realizar o exame de fundo de olho, na rotina de cuidados como ocorre com o teste do pezinho, de inquestionável validade. O diagnóstico que se antecipa aos sinais e sintomas, é o que garante melhores resultados”, explica.
A médica ressalta que o mapeamento de retina é um exame diferente do tradicional “teste do olhinho”. O chamado “teste do olhinho” é um exame básico com capacidade diagnóstica limitada. Normalmente é realizado pelo pediatra, sem as pupilas dilatadas. O exame de fundo do olho (ou mapeamento de retina), por sua vez, é realizado com as pupilas dilatadas por oftalmologista treinado. Nessas condições, há possibilidade de identificar alterações mínimas, menores que um milímetro, no interior do globo ocular. Entre as condições que podem passar despercebidas no teste tradicional estão hemorragias, catarata congênita, cicatrizes de infeções adquiridas pela mãe durante a gestação, como a toxoplasmose, e diversas doenças da retina, incluindo os tumores próprios da infância.
Mesmo com os avanços da medicina, o diagnóstico precoce segue sendo o fator mais determinante para o sucesso terapêutico e a redução de sequelas. No Brasil, o tempo médio entre os primeiros sinais e o diagnóstico do retinoblastoma ainda é de cerca de seis meses. A atuação do Centro Infantil Boldrini, ao integrar assistência, tecnologia e orientação médica, reforça o compromisso da instituição com a proteção da infância.
Ao completar 48 anos, o Centro Infantil Boldrini reafirma que cuidar do câncer infantojuvenil vai além do tratamento, agir rápido e garantir que cada criança tenha não apenas a chance de sobreviver, mas também de preservar sua qualidade de vida. Ao longo de sua história a instituição já atendeu mais de 10 mil casos novos de pacientes com câncer, vindos de diversas regiões do Brasil e até de países da América Latina. Atualmente, cerca de 7 mil destes ex-pacientes, estão fora de terapia sendo acompanhados através dos dados do Banco de Sobreviventes. Esse compromisso só é possível graças ao apoio contínuo da sociedade. Cerca de 55% da receita mensal é proveniente de doações, o que evidencia o papel fundamental da solidariedade da população na manutenção da assistência, no avanço da pesquisa e na formação de profissionais. O Boldrini segue salvando vidas, estimulando o diagnóstico precoce e oferecendo acesso ao melhor tratamento.
Jessica Oliveira)




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