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O Estado Real das Águas em Campinas: Um Corpo que Agoniza

O Estado Real das Águas em Campinas: Um Corpo que Agoniza

Por: Tiago Lira Presidente do COMDEMA CPS. Chefe da Brigada Cachorro do Mato 2° Secretário da PROESP. Canoísta e Guia de Rafting.

Nossa cidade não se situa no tempo e no espaço de forma aleatória. Não somos fruto do acaso; o presente que habitamos é profundamente moldado por um passado que nos define. As relações sociais que estabelecemos com o meio ambiente em Campinas são o resultado direto de uma visão de mundo construída sob o alicerce do antropocentrismo — uma lógica de ocupação onde o ser humano é o centro absoluto, e a natureza um mero acessório.
Compreender a história da ocupação desta terra é entender por que nossas nascentes, córregos e rios foram relegados à insignificância. Por que ainda falhamos em tratar os corpos d’água como verdadeiros sujeitos de direitos?

A Ontologia do Corpo d’Água

Dedico anos ao estudo e à observação dos sistemas hídricos de Campinas e do Brasil. Minha primeira reflexão recai sobre o próprio termo “corpo d’água”. Ele remete a um organismo vivo, composto por múltiplos sistemas internos que garantem o funcionamento de um único sujeito. Chamar uma massa hídrica de “corpo” é reconhecê-la como uma entidade individualizada. Embora a água seja fluida, uma nascente ou um rio possui identidade, limites e integridade.
A identidade de um corpo d’água reside no fato de ocupar um lugar específico no espaço, servindo de referência para inúmeras outras formas de vida. Poetas e escritores já descreveram corpos humanos e hídricos como indistinguíveis em termos de direitos e sofrimento. O rio é um sujeito com corpo físico; tem seu jeito próprio de caminhar pelos vales e de esculpir montanhas.
Nós, compostos majoritariamente por água, somos, em última instância, “corpos d’água que andam”. Se nós caminhamos, por que negamos ao rio o direito de correr livre? Essa percepção deveria quebrar a barreira que separa o “sujeito humano” do “objeto hídrico”.

A Realidade por Trás dos Rankings de Saneamento

Ao olharmos para Campinas com olhos despidos da visão histórica predatória, percebemos uma contradição latente. Embora a cidade figure entre as melhores do Brasil em saneamento básico, nossos corpos d’água não permitem uma “integração de corpos”.
Qual campineiro pode, hoje, banhar-se em um rio próximo à sua casa? Em quais fontes é possível beber sem medo? A “selva de pedra” ocupada por “corpos de concreto” nos roubou o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Neste mês em que celebramos o Dia Mundial da Água, somos confrontados com a desvalorização do nosso bem mais essencial, tratado muitas vezes como mercadoria, e permanecemos ignorando as pressões de comunidades tradicionais, povos originários e organizações não governamentais que, lutam pelo rio como sujeito de direito.

O Caso Piçarrão: Uma Identidade Dilacerada

O exemplo do Ribeirão Piçarrão é o retrato fiel dessa agonia. Ao percorrermos sua bacia, vemos um rio que perdeu sua identidade, massacrado por uma imposição de limites que destruiu sua integridade. A ocupação desordenada soterrou nascentes e invadiu Áreas de Preservação Permanente (APP).
Esta política não é apenas um erro do passado; é uma prática persistente. Vemos condomínios multifamiliares avançando sobre as nascentes dos contribuintes do Córrego do Bosque dos Guarantãs, por exemplo. Qualquer observador percebe que a poluição difusa — metais pesados e hidrocarbonetos lançados nas ruas — flui diretamente para os rios da cidade e isso inclui o Piçarrão, trazendo disruptores endócrinos para o coração da nossa hidrografia. O Piçarrão ainda recebe carga de contaminantes do Aterro Delta e de mais de 50 áreas contaminadas.
Os rios da cidade de Campinas carecem de um projeto amplo de naturalização. Partes do rio piçarrão permanecem canalizadas sob uma lógica que privilegia o transporte individual em detrimento da vida. É um corpo esmigalhado por ruas, esgoto in natura e erosão.

O Encontro com o “Rio Morto”

O sofrimento do Piçarrão culmina em sua foz. Mas antes tem de cruzar pastos despidos -marcados para especulação imobiliária — ele não encontra renovação percorrendo o longo caminho pela periferia de Campinas, pelo contrário, sua vizinhança sofre com as ausências dos direitos fundamentais, assim como os rios essse moradores das margens, dos riscos e dos infortúnios das doenças sanitárias parecem não possuir cidadania apesar de seus corpos ocuparem espaços no tempo. Quando o Piçarrão se junta ao Rio Capivari, que é classificado como um “Rio Morto” onde a própria SANASA abdica da captação devido ao insustentável custo de tratamento. Ali na foz, deveria ser libertador mas ele vai para morte definitiva!
Assistimos ao “velório” desse corpo d’água todos os dias, mas não nos comovemos. Supomos que aquele corpo não é o nosso. No entanto, ao negarmos ao rio o direito de existir em sua complexidade, negamos à população das periferias de Campinas o direito humano básico à dignidade ambiental.
O estado das águas em Campinas não é apenas um problema de engenharia ou gestão de recursos hídricos, o caso do piçarrão não é um caso isolado é um sintoma de uma crise civilizatória onde já não temos mais a sabedoria para ver e reconhecer que o sofrimento do rio é, essencialmente, o nosso próprio sofrimento.
Thiago Lira

Corrego Serafim

Lixo e queda das placas laterais no córrego Piçarrão

O Jornal de Barão e Região foi fundado em janeiro de 1992 em papel E em 13 de maio de 2015 somente on line

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