O verde e o cinza urbanos
por Adilson Roberto Gonçalves
Aprendi que reclamar da retirada de espaço verde para fazer calçadas impermeabilizadas que não são usadas é capacitismo, ou seja, não aceitar a existência de potenciais espaços para cadeirantes se locomoverem. Eu tenho alguma dificuldade para caminhar, devido aos joelhos podres, muito longe da imobilidade, e prefiro andar no meio da rua a trilhar pelas calçadas inclinadas, estreitas, com piso irregular e tendo de baixar para desviar de galhos, poucos, mas ainda existentes.
A fiscalização municipal é muito ágil para aplicar multas aos proprietários de imóveis que não deixam a devida calçada impermeabilizada, removendo gramado e outras plantas. Nos grupos de moradores já foi relatado que um fiscal disse que tal cobrança é feita aqui, pois em outras regiões de Campinas, susceptíveis à mesma legislação, o fiscal nem consegue entrar no bairro.
Por outro lado, entre a preservação ambiental e o devido espaço para a mobilidade inclusiva de todos, algum equilíbrio deveria ser encontrado. Nas ruas mais tranquilas dos bairros de Barão Geraldo, em que apenas o trânsito local persiste, não é lógico que as ruas tenham a mesma largura
destinada a asfalto do que outras vias de maior movimento. São sete longos metros que separam a guia de um calçada da guia em frente. Há farta e controversa legislação sobre o assunto, que mistura questões de trânsito com as de saneamento ambiental, sem contar litígios entre os entes federados: União, Estado e Município. Um deleite para os operadores do direito.
A ideia de usar parte do que hoje é asfalto para plantar árvores é antiga, nunca levada adiante porque a burocracia da ocupação urbana do solo não permite isso. De um lado, o argumento é que as raízes irão danificar os canos de água e esgoto enterrados, como se costumeiramente eles não se danifiquem como resultado da própria obra mal feita. De outro, árvores irão atrapalhar mais ainda os postes, como se não fosse possível também que a fiação fosse subterrânea e os postes para iluminação mais baixos e mais perto uns dos outros. Sim, com maior custo e melhor preservação
dos topos das árvores, pois não seria necessário serem tão altos para que veículos – caminhões de coletas de resíduos, por exemplo – neles não se enroscassem.
Independente de atender a legislação e fiscalização, em ritmo acelerado estamos trocando o verde pelo cinza.

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